Para subir em ranking, Brasil deve priorizar o professor, dizem especialistas

A posição ocupada pelo ensino brasileiro no cenário mundial, divulgada nesta terça-feira (6) pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), mostram que o Brasil não tem nada a comemorar, segundo especialistas ouvidos pelo G1. Mozart Neves Ramos, do Instituto Ayrton Senna, Denis Mizne, da Fundação Lemann, e Ricardo Falzetta, do Movimento Todos pela Educação, afirmam que o baixo desempenho dos estudantes de 15 anos que participaram das provas em 2015 já era esperado, e que os gestores da área precisam ter foco para conseguir uma evolução concreta.

Entre as medidas mencionadas por eles para melhorar o desempenho dos estudantes, o professor deve receber prioridade, tanto na formação inicial quanto nos cursos de reciclagem e, principalmente, na valorização da carreira docente.

Os dados mostram uma queda de pontuação nas três áreas avaliadas: ciências, leitura e matemática. A queda de pontuação também refletiu uma queda do Brasil no ranking mundial: o país ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª em leitura e na 66ª colocação em matemática.

A prova é coordenada pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi aplicada no ano de 2015 em 70 países e economias, entre 35 membros da OCDE e 35 parceiros, incluindo o Brasil. Ela acontece a cada três anos e oferece um perfil básico de conhecimentos e habilidades dos estudantes, reúne informações sobre variáveis demográficas e sociais de cada país e oferece indicadores de monitoramento dos sistemas de ensino ao longo dos anos.

Leia abaixo os comentários de cada um sobre os resultados do Pisa de 2015:

Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna

“Os resultados do Pisa 2015 mostram uma realidade já aguardada por muitos sobre a atual situação do ensino em nosso País: o Brasil continua na rabeira da educação mundial. Assim como nas edições anteriores, ficamos bem abaixo da média dos países da OCDE, com pouca evolução ao longo das últimas edições da prova. O desempenho em leitura e ciências simplesmente não se alterou e, em matemática, houve inclusive uma queda na performance dos estudantes brasileiros em comparação com a avaliação feita em 2012. Apenas para ilustrar, se considerarmos os nossos resultados em ciências, atingimos 401 pontos, enquanto que os alunos dos países da OCDE obtiveram uma média de 493 pontos. É uma diferença que equivale a aproximadamente ao aprendizado de três anos letivos!

E, mesmo quando comparamos o Brasil com países vizinhos da América Latina, esse quadro não melhora. Colômbia, México e Uruguai alcançaram em 2015 resultados maiores que o do Brasil, mesmo apresentando um investimento médio por aluno menor que o nosso. Portanto, o Pisa nos dá uma bela lição. Colocar mais recursos é necessário, mas não basta. É preciso ter foco e geri-los adequadamente. E investir na qualidade do professor é, de longe, o maior diferencial. Isso passa também em superar a baixa atratividade dos jovens brasileiros pela carreira do magistério, ao contrário do que ocorre nos países que estão no topo do ranking mundial do Pisa. Nesses países, ser professor é sinônimo de prestígio social.”

Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann

“Os resultados do Brasil no Pisa são gravíssimos porque apontam uma estagnação em um patamar muito baixo. 70% dos alunos do Brasil abaixo do nível 2 em matemática é algo inaceitável. O Pisa é mais uma evidência do que vemos todos os dias nas escolas. Precisamos, a partir desses resultados, pensar em soluções para o país. Nesse processo, questões como formação de professores, Base Nacional Comum e conectividade são estratégicas e podem fazer o Brasil virar esse jogo.”

Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do Todos pela Educação

“Os resultados do Pisa 2015, infelizmente, não nos dão muitas razões para comemorar em relação ao aprendizado dos alunos brasileiros nas áreas de ciências, matemática e leitura.

Eles mostram duas situações bastante críticas: em primeiro lugar, que os nossos jovens não estão aprendendo conhecimentos básicos e fundamentais para que possam exercer plenamente sua cidadania enquanto jovens e depois, enquanto adultos, realizando seus projetos de vida. Em segundo lugar, a pesquisa aponta novamente – como vemos em diversos outros estudos, inclusive os nacionais – as enormes disparidades entre as regiões. As causas desse quadro são diversas. Assim, são muitas também as soluções necessárias para que o Brasil avance, de fato, na qualidade da Educação: precisamos de escolas mais bem equipadas – apenas 11% delas têm laboratório de ciências, por exemplo, e ainda temos escolas sem água tratada, sem quadra de esportes e sem biblioteca! –; de políticas focadas na redução dos efeitos dos fatores externos à escola que impactam na aprendizagem – como a pobreza –; e investir mais nos professores, desde sua formação (inicial e continuada) e na valorização desses profissionais, com salários e planos de carreira mais atrativos, até melhores condições de trabalho.

Embora não haja uma solução única, a que mais pode ter efeito para melhorar a aprendizagem é o professor, por isso, é fundamental rever os cursos de formação inicial e continuada, de maneira que os docentes estejam realmente preparados para os desafios da sala de aula (pesquisas mostram que os próprios professores demandam esse melhor preparo) e melhorar a atratividade da carreira em todo o país.

Precisamos enfrentar essa cruel desigualdade que acaba por determinar o futuro de nossas crianças e jovens a partir do local onde nascem.

Além disso, o baixíssimo percentual de estudantes nos níveis mais altos de pontuação na área de ciências no Pisa demostram o quanto ainda estamos aquém no que diz respeito à produção científica e inovação no Brasil. Mais uma vez, a educação se mostra central para o desenvolvimento, por isso o Brasil precisa colocá-la de uma vez por todas como eixo central do seu projeto de desenvolvimento.”

Entenda o Pisa

As provas do Pisa duram até duas horas e as questões podem ser de múltipla escolha ou dissertativas. Nesta edição, em alguns países, incluindo o Brasil, todos os estudantes fizeram provas em computadores. O exame é aplicado a uma amostra de alunos matriculados na rede pública ou privada de ensino a partir do 7° ano do ensino fundamental. Além de responderem às questões, os jovens preencheram um questionário com detalhes sobre sua vida na escola, em família e suas experiências de aprendizagem.

Do total de alunos da amostra brasileira, 77,7% estavam no ensino médio, 73,8% na rede estadual, 95,4% moravam em área urbana e 76,7% viviam em municípios do interior.

Estudantes de escolas indígenas, escolas rurais da região Norte ou escolas internacionais, além de alunos de escolas situadas em assentamentos rurais, comunidades quilombolas ou unidades de conservação sustentável não fizeram parte do estudo do Pisa. Segundo o Ministério da Educação, o motivo foram as dificuldades logísticas de aplicação da avaliação e o fato de certos grupos populacionais não terem necessariamente a língua portuguesa como língua de instrução.

 Fonte: G1 – Globo

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